A IRONIA DO IDEALISMO PESSIMISTA

Hoje em dia, tanto homens, como mulheres querem um casamento no qual recebam satisfação emocional e sexual de alguém que lhes permita simplesmente “ser autênticos”. Querem um cônjuge que seja divertido, intelectualmente estimulante, sexualmente atraente, com vários interesses em comum e que, além disso tudo, apoie seus objetivos pessoais e o seu atual estilo de vida.

E, se você quer ter um cônjuge que não exija de você muitas mudanças, isso significa que também está à procura de alguém quase perfeitamente equilibrado, alguém que “não dê muito trabalho” em termos de problemas pessoais. Está à procura de alguém que não precise de mudanças consideráveis nem as exija de outros. Está, portanto, à procura de uma pessoa ideal: feliz, saudável, interessante e satisfeita com a vida. Nunca houve na história uma sociedade repleta de pessoas tão idealistas naquilo que procuram num cônjuge.

Parece quase paradoxal concluir que esse novo idealismo levou a um novo pessimismo acerca do casamento, mas foi exatamente isso que aconteceu. Em gerações passadas, falava-se muito menos de “compatibilidade” e de encontrar a alma gêmea ideal. Hoje em dia, procuramos alguém que nos aceite como somos e realize nossos desejos. O resultado é um conjunto irrealista de expectativas que frustra tantos os que estão à procura como os que estão sendo procurado.

[…]

Seria errado, porém, atribuir a mudança de atitude da cultura em relação ao casamento inteiramente à busca masculina por beleza física. As mulheres foram igualmente afetadas por nossa cultura de consumo. Hoje, tanto para homens como para mulheres, o casamento não é um modo de formar caráter e criar comunidade, mas de alcançar objetivos pessoais. Todos estão à procura de um parceiro que “satisfaça seus desejos emocionais, sexuais, e espirituais.” O resultado é um idealismo extremo que, por sua vez, gera um profundo pessimismo de que será impossível encontrar o cônjuge certo. Este é o motivo pelo qual muitos adiam se casar e nem sequer reparam em excelentes cônjuges em potencial porque os consideram “inadequados”.

É uma grande ironia. Os conceitos mais antigos de casamento são considerados tradicionais e opressores, enquanto a nova visão do casamento centrado no ego parece libertadora. E, no entanto, foi essa nova visão que levou ao declínio vertiginoso do casamento e à sensação opressora de desilusão em relação à união conjugal.

Um casamento centrado no ego requer dois indivíduos perfeitamente equilibrados e felizes, com poucas carências emocionais e falhas de caráter que precisem ser trabalhadas. O problema é que não existe praticamente ninguém assim disponível! O novo conceito de casamento como realização pessoal nos levou a exigir demais – e, ainda assim, não o suficiente – do casamento.

No artigo humorístico clássico de John Tierney, “Pick, Pick, Pick” [“Exigente demais”, tradução livre] ele realiza a nobre tentativa de nos fazer rir da situação impossível em que nossa cultura nos colocou.

[…]

Depois de examinar anúncios pessoais absurdamente fantasiosos (nos quais o tipo de parceiro “procurado” não existe na vida real), Tierney concluiu que os adultos jovens estavam sofrendo cada vez mais daquilo que ele chama de “detector de defeitos”.

Trata-se de uma “voz interior, um pequeno dispositivo que fica zumbindo dentro do cérebro e que detecta, instantaneamente, um defeito fatal em qualquer parceiro em potencial”. Qual é a finalidade do “detector de defeitos”? Para Tierney, uma das possibilidades é que ele tenha sido desenvolvido por pessoas “decididas a conseguir mais do que merecem e rejeitar qualquer um que seja vagamente parecido com elas mesmas”.

Ele conclui, porém, que na maioria das vezes é um dispositivo que nos fornece uma justificativa para continuarmos sozinhos e, portanto, em segurança. “No fundo, eles sabem por que precisam de detector de defeitos […] Não é algo fácil de admitir, especialmente no Dia dos Namorados, mas o que estão tentando dizer, de fato, nesses anúncios pessoais é: ‘Procura-se: Ficar Sozinho’.”

Em outras palavras, algumas pessoas em nossa cultura exigem demais de um cônjuge. Não veem o casamento como a união de duas pessoas imperfeitas para criar um espaço de estabilidade, amor e consolo, um “refúgio num mundo sem coração”, como Cristopher Lasch o descreve. Sem dúvida, a mulher terá de ser “romancista/astronauta, com experiência nas passarelas” e o homem, algo equivalente. O casamento que não é baseado na abnegação, mas na satisfação pessoal, requer um parceiro que não dê muito trabalho, que supra suas necessidades e, ao mesmo tempo, não exija quase nada de você. Em resumo, hoje em dia as pessoas esperam demais do cônjuge.

[…]

Afinal, a liberdade individual, a autonomia e a realização ocupam o topo da lista de valores de nossa cultura, e qualquer cabeça pensante sabe que todo relacionamento amoroso implica a perda desses três elementos.

Você pode até dizer: “Quero alguém que me aceite exatamente como sou”, mas, bem no fundo do coração, você sabe que não é perfeito, que precisa mudar em vários aspectos e, se alguém vier a conhecê-lo de modo mais íntimo, esse alguém tentará fazer essas mudanças. Também sabe que a outra pessoa terá necessidades profundas e defeitos. Tudo isso parece (e, de fato é) penoso, e você não tem interesse em toda essa bagagem. No entanto, é difícil reconhecer para o mundo ou para si mesmo que você não deseja se casar. Logo, você ajusta seu “detector de defeitos” em intensidade máxima para garantir que manterá distância do casamento.

Todavia, evitar o casamento simplesmente porque não se deseja perder a liberdade é a pior coisa que alguém pode fazer com seu coração.

 Extraído do livro:O significado do casamento, Timothy Keller com Kathy Keller, p. 41/45.

o significado do casamento - capa livro

01/06/2016

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