A imortalidade de Sócrates

Particularmente, me considero um amante da cultura filosófica, da história em geral e parte das historiografias. Esse sentimento se percorre por pequenos fatores resgatados a partir da busca pelo conhecimento que assim é encarnado em mim. Pois, sabemos que, nossas escolas e universidades não se mostram tão aptas a despertar isso em seus alunos. Da mesma forma, ligam-se nos grandes’ resumos sobre praticamente tudo. Negligenciando a beleza daquilo que se apresenta historicamente como a filosofia, literatura, etc.

Venho aqui por leve efeito de contraste, mostrar o último diálogo de Sócrates. Aos 70 anos de idade (399 a.C); talvez achasse que estava na hora de morrer, e que nunca teria nova oportunidade de morrer de forma tão proveitosa.

“- Animai-vos – disse ele aos amigos que se mostravam tristes – e dizei que estão enterrando apenas o meu corpo – disse Sócrates.”  

Ao acabar de proferir aquelas palavras, diz Platão em uma das grandes passagens da literatura mundial:

“ele se levantou e se dirigiu ao banheiro com Críton, que nos pediu que esperássemos; e esperamos, conversando e pensando (…) na grandeza de nossa dor. Ele era como um pai do qual estávamos sendo privados, e estamos prestes a passar o resto da vida órfãos. (…) A hora do pôr-do-sol estava próxima, pois já se passara um longo tempo desde que ele entrara no banheiro. Quando saiu, tornou a sentar-se conosco (…), mas não se falou muito. Pouco depois, o carcereiro (…) entrou e se postou perto dele, dizendo:
– A ti, Sócrates, que reconheço ser o mais nobre, o mais delicado e o melhor de todos os que já vieram para cá, não irei atribuir os sentimentos de raiva de outros homens, que se enfurecem e praguejam contra mim quando, em obediência às autoridades, lhes mando beber o veneno… De fato, estou certo de que não ficarás zangado comigo; porque, como sabes, são outros, e não eu, os culpados disso. E assim eu te saúdo, e pelo que suportes sem amargura aquilo que precisa ser feito; sabes qual é a minha missão. – E caindo em prantos, voltou-se e retirou-se.

Sócrates olhou para ele e disse:
– Retribuo tua saudação, e farei como me pede – referindo-se agora a nós, disse: – Como é fascinante este homem; desde que fui preso, ele tem vindo sempre me ver, e agora vede a generosidade com que lamenta a minha sorte. Críton; que tragam a taça.
– No entanto – disse Críton -, o sol ainda se encontra no topo das montanhas, e vários têm tomado a bebida tarde da noite. E depois de feita a comunicação, eles comem, e se dedicam aos prazeres da carne; não te apresses, pois; ainda há tempo.
Sócrates disse:
– Sim, Críton, e esses de quem falas estão certos ao fazerem isso, porque pensam que vão lucrar com a demora. Mas tenho razão ao não fazê-lo. Peço-te, pois, que faças o que digo, e não te recuses.
Críton, ao ouvir isso, fez um sinal para o criado; o criado indo lá dentro, demorou, depois voltou com o carcereiro trazendo a taça de veneno. Sócrates disse:
– Tu, meu bom amigo, que tens experiência nesses assuntos, irás me dizer como devo fazer.”

Em um diálogo rápido, o homem respondeu meticulosamente cada passo que Sócrates deveria fazer após tomar o veneno. E após isso:

“Até aquele instante, a maioria de nós conseguira controlar a dor; mas agora, vendo-o beber e vendo, também, que ele tomara toda a bebida, não pudemos mais nos conter; apesar de meus esforços, lágrimas corriam aos borbotões. Cobri o rosto e chorei por mim mesmo; pois não havia dúvida de que não estava chorando por ele, mas por pensar na calamidade de ter perdido tal companheiro. E não fui o primeiro, pois Críton, quando se vira incapaz de conter as lágrimas, levantara-se e se afastara, e eu o segui; e naquele momento, Apolodoro, que estivera soluçando o tempo todo, prorrompeu num choro alto que nos transformou todos em covardes. Sócrates foi o único a manter a calma:

– Que tumulto estranho é esse? – disse ele. – Mandei as mulheres embora principalmente para que elas não causassem um tumulto desses, pois ouvi dizer que um homem deve morrer em paz. Acalmai-vos, pois, e tenhais paciência.

Ao ouvirmos aquilo, sentimo-nos envergonhados e contivemos as lágrimas; e ele andou de um lado para o outro – assim como foi ordenado após beber -, até que, como nos disse, as pernas começaram a fraquejar; então ele se deitou de costas, segundo as instruções, e o homem que lhe dera o veneno, lhe cobria e examinava-o. Depois de aperta-lo várias vezes na perna, foi subindo, subindo, e nos mostrou que ele estava insensível e rígido. Sócrates apalpou as próprias pernas e disse:

– Quando o veneno chegar ao coração será o fim.
Ele estava começando a ficar insensível na virilha, quando descobriu o rosto e disse aquelas que foram suas últimas palavras:
– Críton, eu devo um galo a Asclépio; vais te lembrar de pagar essa dívida?
– A dívida será paga – disse Críton. – Mais alguma coisa?

Após disso, não houve resposta àquela pergunta.”

O final da história de Sócrates, não foi somente uma das provas de que a hegemonia ideológica, aceitável sempre na crença de uma religião ou política, sem ao menos evidenciar ao ser humano quem ele é e fazê-lo procurar, nos mostra também a falsa idéia’ de que a Filosofia deve ser somente encarada de uma forma. A filosofia é um prazer, quase um atrativo na parte intangível dela, a metafísica. Uma vez negligenciadas, a filosofia é inexistente.

Ela nos mostra de que o mundo pode não ser como cogitamos em forma de simples idéias sem o questionamento, sem a procura e sem a questão prática. No caso particular, o de Sócrates, tornou-se imortal. Tornou-se existente. O começo do processo de filosofar, este que, jamais, creio em meu humilde conhecimento, deixará de ser infinito. Conceitos e acontecimentos tão antigos que, muitas vezes descartamos por simples conteúdo de propostas. Conceitos e acontecimentos tão antigos mas, na realidade dos fatos, são reflexos até hoje. 

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