A encarnação da mentalidade revolucionária

Em momentos de um Brasil que começa a dar seus primeiros suspiros de resgate cultural, de um Brasil que esta se vendo diante de um mar de misérias construídas ao longo de décadas pela esquerda sem qualquer [capacidade de] resistência mínima que seja da população, é indispensável a desmistificação de atribuições feitas ao que se entende por direita política e que foram sendo incutidas, covarde e desonestamente, no ideário comum ao longo desses anos. Hoje, o Brasil desperta e inicia uma nova caminhada intelectual, buscando a isenção de qualquer assédio ideológico, com aquilo que mais diferencia os bons dos maus brasileiros; os que tem interesse real pelo conhecimento dos que fazem dele um despejo de anseios políticos e utópicos, que é justamente o amor pela verdade.

Durante todos esses anos de resistência inerte, a esquerda viveu por propagar a ideologia do nazismo como sendo vertente de um pensamento de direita, porém, se esquecem de que o partido ao qual o Hitler era o líder máximo, chamava-se Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, o que já evidencia um claro sentimento anticapitalista, dado o fato de Hitler entender que judeus estavam por trás da grande depressão de 1929 e que, portanto, o capitalismo também estaria eivado do ”veneno semita”. Mas esses são apenas detalhes que devem ser tidos como a mera espuma dessa relação. As semelhanças entre Hitler, o Partido Nazista e a esquerda como um todo são muito mais profundas e, para imergir nesse universo e entender esse paralelo – que restará claro – cabe a nós entender a mentalidade revolucionária no seu aspecto abstrato e não vista como oriunda apenas de uma sigla partidária-ideológica ou de ideologias (comunismo, anarquismo, liberalismo, niilismo), pois é justamente a falta dessa compreensão mais ampla, observada do prisma de um quadro mais geral dos seus aspectos, que faz desse debate algo tão mesquinho a ponto de concluírem que Hitler era um homem ”de direita” apenas por fazer uma campanha anticomunista durante seu governo, ou ainda, pela simples quebra do pacto nazi-soviético Ribbentrop-Molotov, ao invadir a URSS. A imensa variedade de movimentos que abarcaram o pensamento revolucionário é tamanha que não é correto tentar enquadra-lo em uma definição pertencente a uma só ideologia ou partido, uma concepção dentro desse entendimento não pode ser exato em função da vestidão que é a pluralidade, incluindo a capacidade de reinventar-se, da própria esquerda. Essa consideração também é de suma importância para sabermos identificar ideias revolucionárias nas suas diversas facetas no dia a dia.

A mentalidade revolucionária encontra sua plenitude no final do séc. XVIII e início do séc. XIX, quando o mundo já havia se deparado com uma série de eventos cuja a amplitude de suas transformações radicais abarcou grande parte da Europa, causando reformas estruturais em instituições de diversas matizes, o tempo era o do florescimento do iluminismo, da emancipação da razão, do pensamento materialista e, por conseguinte, da exclusão paulatina de uma abordagem transcendental em todas as áreas do conhecimento. Sob esse aspecto, é possível destacar que a mentalidade revolucionária se consolida de modo a sempre partir com uma perspectiva para a construção de um diálogo não com uma ordem moral duradoura – já permanente e estável na sociedade, mas sim com a mudança radical dessa ordem, substituindo-a por uma outra que, em seu lugar, estará advogando a causa de um sistema que, dada sua implementação, configuraria no mundo um estado de perfeição e pureza ao qual o homem não estaria mais sujeito à condição de imperfeição, inerente de sua natureza. A mentalidade revolucionária não entende essa natureza humana como um estado permanente do homem, ainda, não entende que ela pode ser apenas atenuada, mas sim que pela implementação de uma ordem nova, que obrigatoriamente exige mudanças radicais, ela pode ser eliminada dando lugar a uma nova natureza, que saberia conviver em um estado de perfeição hipotético, tendo em vista que essa nova sociedade não tem elementos empíricos para se fundar, apenas divagações oriundas de ideologias, que a torna hipotética pelo simples fato de nunca ter tido existência na realidade.

Posto isso, Hitler, em linhas gerais, no seu livro “Minha Luta” discorre a todo instante com o intuito de promover a mudança de uma ordem já estabelecida, sendo essa mudança algo que atinge o mais alto patamar de radicalismo que se possa esperar, pois postulava não só que a Alemanha carecia de uma ”reestruturação completa”, mas também que a humanidade como tal deveria ser sanada visando a construção de uma identidade racial única, a qual Hitler acreditava ser a superior. Se no leste europeu, o Partido Bolchevique influenciado pela máxima marxista de que a classe dominante não cederia o poder sem uma derrubada violenta, perpetrou uma série de atentados ceifando milhões de vidas por atribuírem aos Cúlaques (camponeses ricos, burgueses) a culpa por todas as misérias e desigualdades existentes, na mesma medida Hitler o faz com os judeus ao culpabiliza-los pela deterioração econômica, em função de observar a presença de judeus atuando na crise que originou a grande depressão, pela ascensão do comunismo por notar a presença de judeus também na cúpula do Partido Bolchevique e, principalmente, por considera-los uma sub-raça. Ambos criam a ideia de que grupos específicos são culpados pelas mazelas da sociedade e, em razão disso, precisam ser eliminados para que suas respectivas ideologias se façam valer, os objetos são diferentes, de um lado os cúlaques; do outro os judeus, mas a substância do pensamento e o resultado da ação – a morte de judeus e/ou camponeses ricos – são os mesmos. As vítimas são indesejadas por serem, ao mesmo tempo, peças que impedem a construção da sociedade almejada pelas suas respectivas ideologias.

Nos dois casos temos figuras que assumem um papel de protagonismo na mudança radical do modelo de sociedade que, em contraponto, é uma conduta diametralmente oposta com a visão conservadora de mundo, esta, ao invés de dialogar com a construção de um futuro hipotético e buscar a construção deste, traz à tona o empirismo adotando uma visão pragmática do mundo na qual, antes de tudo, há um diálogo com o passado e neste esta a ordem, que só pode ser consolidada se entendida a moral como um elemento de caráter duradouro que deve ser preservado e, justamente por isso, não se submete a mudanças bruscas tampouco radicais, o que faz surgir na ideia de mudança uma prudência maior, entendendo que esta jamais pode ser endossada sem que haja também uma continuidade do que de bom fora herdado.

Texto de Thiago Scarponi, editor da página Reaças SP

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