Não tem mulheres no governo Temer. E daí?

temer-carta

O impeachment de Dilma Rousseff e a nomeação de seu vice, Michel Temer, como interino na presidência da República, neste dia 12, trouxe para o Brasil os holofotes do mundo. Um assunto tão delicado quanto afastar um presidente de seu cargo, sem dúvida, é algo a ser debatido e acompanhado com olhos cautelosos.

Como uma das medidas no cargo mais alto da política nacional, Temer reduziu o número de ministérios para 23, sendo que, destes, nenhum é encabeçado por uma mulher.

Foi o suficiente para que começassem as reclamações, especialmente por parte do movimento feminista – e defensores do governo Dilma, evidentemente.

Questões pessoais de um político, para estas pessoas, é mais importante do que o que realmente deveria estar em discussão: a competência dos mesmos nos cargos para os quais foram eleitos.

Nada que surpreenda muito, afinal, o PT sempre utilizou as pautas de movimentos sociais para conquistar o apoio da massa. Quem nunca ouviu que ser contra o PT é ser contra os pobres, gays, negros e/ou mulheres? Para a base governista, rejeitar o petismo significa ter ódio das ‘minorias’ e pertencer à odiada ‘burguesia que não aceita o resultado das urnas’. Ela ignora solenemente o fato de que 68% da população apoiava o impeachment, num país onde 72% recebem menos de 2 salários mínimos (o que certamente denota uma ‘burguesia’ demasiado pobre) pagando por 53% dos impostos arrecadados, e que a mesma democracia que ama exaltar defende exatamente o poder da povo.

O rico e branco que apóia o governo é o ‘intelectual que pensa nos menos favorecidos’, o negro e pobre que não o faz é o ‘mal-agradecido que não representa a classe trabalhadora’. Ou seja, não se pode fazer parte de nenhuma ‘minoria’ e ao mesmo tempo não apoiar o governo, na visão do petista. O típico discurso da luta de classes.

Mas o que o PT fez de fato sobre a ‘representatividade feminina’ durante seu governo?

Para efeitos de comparação, considerarei apenas o segundo mandato de Dilma Rousseff como presidente, iniciado em 1 de janeiro de 2015.

À época de seu segundo turno, 39 pessoas, sendo 33 homens e 6 mulheres, ocupavam a Esplanada dos Ministérios. Das mulheres, 3 faziam parte de Secretarias com status de ministério pertencentes ao Poder Executivo, que foram extintas após reforma ministerial proposta por Dilma no ano passado e incorporadas ao então recém criado Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que foi dado a Nilma Lino Gomes, anteriormente ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Ideli Salvatti e Eleonora Menicucci, das Secretarias de Direitos Humanos e Políticas para as Mulheres, respectivamente, deixaram seus cargos para a unificação do novo ministério.

Não houve comoção quando Dilma cortou duas mulheres da já reduzida participação feminina na Esplanada dos Ministérios. Os apoiadores do governo também não esboçaram críticas à cortes nos programas sociais. As verbas para construção de creches, tão importantes para que a mulher possa manter a dupla jornada de mãe e trabalhadora, foram reduzidas em assombrosos 87%. O Bolsa Família, uma das maiores bandeiras da gestão petista, que possui 92% de mulheres como titulares, viu seu orçamento cair 5,7%. Minha Casa Minha Vida, programa aclamado quando Dilma alterou regras e priorizou mulheres como titulares da posse do imóvel em caso de divórcio e que, segundo dados do Governo Federal, possui 89% de mulheres como proprietárias, perdeu 74% de verba. O programa de crédito Minha Casa Melhor, que financiava a compra de eletrodomésticos e móveis para beneficiários do Minha Casa Minha Vida, foi suspenso. Programas de combate as drogas e apoio a gestantes sofreram mais de 20% de cortes.

cortes dilma

(Disponível em: http://infograficos.oglobo.globo.com/brasil/desidratacao-dos-programas-sociais.html)

O partidário do PT, quando o mesmo não está no poder, nunca está satisfeito com nada. O mesmo partido que se gaba de jamais ter ido às ruas lutar contra outros governos é recordista absoluto em pedidos de impeachment, tendo encaminhado 50 deles contra os 4 presidentes não petistas eleitos desde o fim do período militar. 

Considerando a linha de pensamento do governista, se houvessem mulheres ocupando ministérios de Temer, certamente haveriam reclamações por ausência de negros. Tendo estes últimos, a pauta seria ‘representatividade trans’ ou algo do tipo, e assim segue ad infinitum. Para ele, não importa que mulheres corruptas e/ou ineficazes ocupem cadeiras no governo, elas precisam estar lá. Afinal, nada mais igualitário que pregar o fim da segregação exigindo que pessoas devam assumir cargos porque são mulheres, gays, negras ou afins, como se estas não possuíssem os mesmos valores intelectuais que qualquer outro ser humano. Também não faz diferença que o mesmo homem a quem taxam de machista tenha sido o responsável pela criação da primeira delegacia da mulher

Eu não ousaria jamais dizer que as escolhas de Temer englobam apenas homens decentes e de índole impecável. De jeito nenhum. A escolha dos representantes ficou tão ao gosto petista que as charges caracterizando-o vestido de mulher, como se fosse Dilma, representam bem a situação. A questão é que ‘representatividade’ não é o que o ativista anti-Temer quer. O que ele deseja é continuar alimentando a luta de classes que seu amado governo prega, defendendo que uma mulher corrupta em cargos ‘pelo menos é uma mulher’, mas um homem igualmente corrupto é um monstro que deve ser extirpado – a menos que esteja do lado do PT, evidentemente. Para Eduardo Cunha, o terror dos governistas, o fogo do inferno. Para Calheiros, igualmente corrupto, silêncio – até que ele resolveu manter o rito do impeachment, quando tornou-se outro ‘inimigo da democracia’.

No fim, a conclusão é que quem muito ‘problematiza’ não está verdadeiramente interessado em resolver nada.

5 thoughts on “Não tem mulheres no governo Temer. E daí?

  1. Lucas Monteiro de Castro

    o problema da internet foi ter dado voz aos ignorantes…..

    • Nadia

      Verdade, né? Vejo uns comentários tão toscos e sem qualquer base crítica por aí que já cheguei a essa mesma conclusão.
      ;D

    • Rodrigo Malikovsky Marquardt

      Ignorantes somos todos. E quem não admite isso é um tolo.

  2. Emerson Esteter

    Não há mulheres no governo Temer, assim como não havia honestos no governo Dilma, sendo assim prefiro um ministério formado por esta SEGUNDA minoria. Lembrando que este ainda não o é, mas quem sabe cheguemos lá.

  3. Carlocarlus

    E dai?

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