COMO SURGE O CONSERVADORISMO

Imagine uma pessoa dando “pitacos” na organização da sua casa, o local dos móveis, a intensidade da luz… imagine um estranho educando seu filho com princípios totalmente contrários àqueles que você transmitiu, ou ainda, aquela amiga perversa da sua esposa dando conselhos que ao seu ver são prejudiciais ao relacionamento estável de vocês. Agora imagine que alguém, sem te consultar, trocou todo seu guarda roupas, e de repente você é obrigado a usar peças bregas e calçar crocks e air max com cores florescentes… Imagine que essa mesma pessoa alterou toda programação de seus eletrodomésticos, a despeito de seus hábitos, rotina e preferências…

Toda essa mudança abrupta, causa, inevitavelmente, uma desordem. Tudo aquilo que repentinamente altera a ordem outrora vigente gera uma desestabilização, uma desordem inesperada cuja adaptação nem sempre será fácil, de modo que é natural a tentativa de reaver aquilo que se perdeu ou que sente estar se perdendo. Isso é a disposição conservadora, e é neste cenário que surge o conservadorismo.

A ilustração que inaugura este texto parece cômica mas é real, e visa mostrar que antes de tudo o conservadorismo não é uma concepção arcaica de mundo, tão pouco uma ideia de gente elitizada e velha que deseja manter um status quo, estigma este largamente difundido por universidades Brasil afora… Não, o conservadorismo definitivamente não é isso. Nas palavras de Roger Scruton:

O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas

A lucidez do pensamento conservador reside no respeito aos sentimentos do indivíduo em relação ao objeto. O apego, o sentimento de pertença, de identidade, do hábito, das tradições… todas estas coisas resultam de uma concepção conservadora, uma disposição em preservar, conservar esta relação, este objeto; daí a razão pela qual, em algum sentido, todos nós somos conservadores.

Entendido o que é conservadorismo na prática, é importante pontuar a sua origem teórica. Antes disso cabe deixar bem claro que ao contrário das mil e uma ideologias soltas por ai, o conservadorismo não se limita a oferecer um código de conduta composto por um decálogo sagrado, incorruptível e imutável. Menos ainda se assenta num materialismo histórico semi-exotérico com traços de vidência e farsa filosófica… Antes de tudo, o pilar do pensamento conservador é ele próprio fruto de uma tradição filosófica, uma linha de pensamento que une preceitos verificáveis em toda história da filosofia, de Aristóteles a Dalrymple, passando por Cícero, Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho,  Richard Hooker, Quinton, Burke, Oakeshott, Nisbeth, Tocqueville, Kirk, etc. Dito isso, é possível dizer que a composição teórica do pensamento conservador está fundamentada na necessidade de sempre estabelecer uma ponte entre o passado e o presente, sem deixar-se deslumbrar por utopias e vidências que estimem um futuro promissor onde tudo será perfeito e todos serão felizes. Ou seja, o pensamento conservador é antes de tudo um misto de prudência e ceticismo: prudência com os avanços e demandas progressistas, ceticismo com as promessas.

Para compreendermos a raiz dessa definição é preciso voltarmos a Burke, o propulsor do conservadorismo moderno.

Podemos dizer que a influência de Burke é essencial, posto que de certa forma foi ele quem deu rosto ao que hoje entende-se por conservadorismo. Em sua obra clássica intitulada Reflexões sobre a revolução francesa, Burke não só define a postura conservadora, como inaugura um movimento de resistência face as mudanças abruptas e investidas provenientes de movimentos revolucionários que atentam contra a ordem social com suas demandas diversas. Assim, Burke faz surgir o conservadorismo como reação e não como proposta, o que favorece um pouco a confusão com o termo reacionário -embora exista uma grande diferença entre eles.

Nas palavras de Novalis:

Foram escritas várias obras antirrevolucionários sobre a Revolução. Burke escreveu um livro revolucionário contra a revolução

Sim, Burke teceu inúmeras críticas à Revolução Francesa, sobretudo aos males causados por ela. A mudança abrupta na ordem vigente, o banho de sangue em nome de uma utopia… tudo muito bem relatado e submetido à critica. Eis um trecho:

Em meio a matança promiscua, deliberada e sem resistência que se fez dos cavaleiros de berço e distinção familiar que compunham a Guarda Real, dois foram escolhidos, os quais, com toda pompa de uma execução judicial, foram cruel e publicamente arrastados ao cadafalso e decapitados no grande pátio do palácio. Suas cabeças foram fincadas em lanças e levadas a frente da procissão, enquanto os cativos reais que as seguiam em comitiva eram lentamente conduzidos entre gritos horríveis, brados assustadores, danças frenéticas, insultos infames e todas as indizíveis abominações das fúrias do inferno sob a forma ultrajante das mais vil das mulheres. Depois que os fizeram provar, gota a gota, um licor mais amargo que a morte na lenta tortura de uma jornada de 12 milhas que se prolongou por seis horas, foram alojados, sob uma guarda composta pelos mesmos soldados que os conduziram ao longo deste famoso triunfo, em um dos antigos palácios de Paris, agora convertido em uma Bastilha para reis

Diante de tal quadro, indaga o autor:

Esse é o triunfo a ser consagrado nos altares? A ser comemorado em ações de graças? A ser oferecido à divina humanidade com prece fervorosa e hino entusiástico?

Em suma, a crítica ao legado da Revolução Francesa não é só pertinente como respeitável. O senso comum nos diz que aquilo que começa errado dará errado, ou ainda que aparentemente tenha dado certo, o que se perdeu via de regra é maior do que o que se ganhou, pois, ao legitimarmos o morticínio e a carnificina enquanto instrumentos da justiça em atendimento a satisfação da vontade popular, assumimos o risco de ver triunfar a tirania sobre a legalidade, a impetuosidade sobre a prudência; e é neste cenário e com este viés que a crítica Burke se justifica.

Quando transformações radicais se afiguram como soluções imediatas para problemas estruturais da sociedade, a prudência conservadora requer reflexão. Não porque se teme a mudança, mas por se respeitar determinados institutos  que se mostraram eficientes ao longo do tempo, e que correm riscos de serem extirpados da ordem social, o que pode ou não vir a causar problemas muito maiores do que aqueles que se tentou resolver. É contra isso que o conservadorismo se insurge: contra o modismo da reforma imediata a qualquer preço. O conservador é aquele cara sereno e sábio, que no meio da gritaria, faz ressoar com mansidão, a ponderação que silencia as indagações intrépidas de seres irracionais e histéricos; não é a toa que o conservador é uma figura vinculada à velhice, pois é na experiência que reside o conhecimento empírico, como assevera Oakeshott:

Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o facto ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica. As relações e lealdades familiares serão preferíveis ao fascínio de vínculos mais proveitosos; comprar e expandir será menos importante que conservar, cultivar e desfrutar; a dor da perda será maior que a excitação da novidade ou da promessa

Portanto, o conservadorismo surge enquanto reação ao modismo e suas utopias. É a voz daquele que conhece e sabe, com base na experiência, que determinadas transformações e demandas não são saudáveis só porque estão na moda ou revestidas de um aparente caminho rumo ao progresso. É aquele que sabe que nem sempre a perda vale o ganho.

Diante de tudo que foi exposto, podemos encerrar com a certeza de que o conservadorismo não é nem um pouco inflexível e insano. Compreendendo também que o movimento conservador que ressurge no Brasil não é fruto de uma sociedade “atrasada”  com medo do “progresso”. Antes, é o reflexo de uma reação natural de uma sociedade que compreende determinados valores como essenciais e inegociáveis, e que são verdadeiros corolários da nossa cidadania, a qual não estamos dispostos a negociar apenas para atender demandas utópicas de agentes com complexos mal resolvidos; pois não podemos esquecer jamais que, diferente destes movimentos que só trouxeram tiranias e morticínios, os quais ainda hoje perduram ao redor do mundo, o conservadorismo é de fato um humanismo.

Referências bibliográficas:
1-Reflexões sobre a revolução na França. Edmund Burke; Edipro 1º Ed.
2- As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários. João Pereira Coutinho; Três Estrelas, 1º Ed.
3- Como ser um conservador. Roger Scruton; Record, 1º Ed.
4- Ser conservador. Michael Oakeshott, Gabinete de estudos Gonçalo Begonha.

Originalmente postado em: http://wellocontestador.blogspot.com.br/2016/05/como-surge-o-conservadorismo.html

Curta: O Contestador

One thought on “COMO SURGE O CONSERVADORISMO

  1. SeoPhai. #auroramanga

    nossa que belo texto.
    consequencia do conservadorismo, na pratica : paneleiros

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