Esquerdista pode ter iphone?

É comum observarmos críticas feitas aos “revolucionários” quanto ao uso de objetos de luxo e em especial o “irresistível” iphone.

Diante das críticas resolvi responder a uma pergunta muito frequente:
“Esquerdista pode ter/usar iphone?”

Essa indagação é proveniente não de uma ignorância  a respeito do pensamento marxiano mas do fato de que eles, esquerdistas, sempre destilam seu ódio ao capitalismo, aos ricos e ao consumismo; ao passo que entoam cânticos de júbilo e amor aos pobres, filhos da opressão cuja a própria ideologia marxista atribui ao sistema capitalista a culpa pela existência miserável.

Diante da denúncia à incoerência do discurso o “lado esquerdo da força” advoga a possibilidade e a não contradição entre ideologia marxista (ou marxiana como queiram) e o uso de objetos de grife, dizendo ainda que “se a classe trabalhadora tudo produz à ela tudo pertence”, frase esta dita pelo próprio Karl Marx.

Só que é preciso interpretar esta frase corretamente. O que Marx quer dizer deve ser interpretado à luz do processo de alienação do trabalhador para com a mercadoria. Segundo esse entendimento, os bens pertencem a classe trabalhadora por direito, (NÃO POR AQUISIÇÃO), direito este que é negado pela ação do capitalista que aliena o trabalhador de sua produção já que a mercadoria embora produzida pela classe trabalhadora, à ela não pertence, mas ao capitalista.

Segundo Marx, a mercadoria se torna objeto de desejo indevidamente, já que ele, o trabalhador, é o verdadeiro “dono” daquele bem. Essa alienação acaba criando um ciclo de distanciamento entre o produto produzido, o agente produtor e as relações de trabalho que envolvem a produção. E mediante artimanhas perpetradas pelo capitalista para alavancar o desejo sobre aquela mercadoria, tanto trabalhadores quanto consumidores passarão a ter por ela, a mercadoria, um… FETICHE!

A ideia de fetichismo da mercadoria em Karl Marx, visa explicar o processo pelo qual um simples produto se torna objeto de desejo, um desejo tão voraz que é capaz de convencer-nos de sua necessidade. Esse desejo agrega ao produto um valor maior do que aquele que seria atribuído se dependesse apenas dos custos oriundos do processo de produção…
Para a criação do fetiche em volta de determinada mercadoria, é preciso ocultar o caráter social do trabalho e as relações sociais envolvidas nele, afinal de contas, ninguém da Apple gostaria de ver o processo de produção do iphone envolvido com mão de obra escrava, certo? Além do mais, a necessidade de satisfação de valor do capital requer que o produto tenha um status digno de adoração, que só pode ser viabilizado se este objeto for distanciado do fator humano, elevado de tal forma que a posse desse produto seja interpretada como sinal de poder e prestígio além de é claro, convencer da extrema necessidade desse produto em sua vida.
Vítimas desse processo, nerds e fanáticos enfeitiçados (a palavra fetiche deriva de feitiço) fazem barracas e concorrem para serem os primeiros das filas que são formadas para a aquisição do produto do ano: o novo iphone.

Conhecido o processo (que não é exclusivo do iphone mas de toda mercadoria de grife) e a ótica marxista, fica a pergunta: esquerdista pode usar/ter iphone?
Ora é claro que qualquer um com possibilidades pode adquirir o que bem entender para seu uso. Diferente dos esquerdistas, nós, pessoas lúcidas, respeitamos a liberdade do indivíduo e seu direito à propriedade. Acontece que para efeitos de coerência ideológica a aquisição de qualquer grife por parte de um esquerdista estará não só contribuindo para o fortalecimento do capitalismo e seus meios de sedução, como  estará financiando a exploração que o capitalista exerce sobre a classe operária.
Adquirir um iphone, um tênis da Nike, um agasalho da Adidas, etc., é dizer SIM ao capitalista e seus métodos heterodoxos de produção, é agir contra a causa revolucionária, contra os ideais socialistas, é como lutar pelo fim do tráfico de drogas consumindo cada vez mais drogas, ou seja você financia o inimigo e isso é muito contraproducente.

Então se os esquerdopatas  desejam concluir seu plano utópico e maquiavélico; será preciso que façam este imenso sacrifício e honrem sua ideologia, abrindo mão de todas essas benesses “malvadonas” que o capitalismo opressor proporciona, sacrificando-se pela causa, sendo eles mesmos os primeiros a carregar o fardo que desejam impor sobre a humanidade. Ponto contra, devem render-se à eficácia do mercado e ao triunfo do realismo.

Brindemos nossa saúde mental no interior de um McDonalds, façamos nosso selfie com o iphone do momento, e postemos nosso êxtase consumista sem culpa nem remorso, afinal, não somos hipócritas!

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