O justiceiro social e a intolerância

Hoje em dia, com o politicamente correto que domina a sociedade, vivemos numa espécie de ditadura da opinião. Não se deve criminalizar um menino periférico que assalta e mata, mas fazer piada com negros ou gays merece sentença de morte. Chamar o Estado Islâmico de ‘escória da humanidade’ é ‘discurso xenófobo’, mas um muçulmano se recusar a cumprimentar um israelense após perder para ele é um ‘incidente.

Com a ascensão dos ativismos, liberdade de expressão tornou-se um crime – isso, evidentemente, quando bem convém. O mesmo movimento LGBT que chamou Patrícia Abravanel de homofóbica por considerar anormal relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo pouco se incomoda com – ou mesmo minimiza – o fato de que Lula já chamou Pelotas (RS) de ‘cidade exportadora de viado’. Num caso mais recente, a nadadora Joanna Maranhão chamou o Brasil inteiro de machista e homofóbico após perder uma prova, mas quando confrontada com declarações ‘transfóbicas’ que fez no passado, pediu desculpas e disse que não passavam de brincadeiras. A lógica fica bem clara: precisamos lutar contra a intolerância – mas só quando o intolerante não for meu amigo ou eu mesmo.

A sabedoria popular afirma que as pessoas apontam nos outros os defeitos que elas mesmas possuem. A veracidade dessa afirmação ficou cristalina, graças ao Justiceiro Sujo, página no Twitter dedicada a mostrar a outra face dos famosos defensores das minorias, aqueles fiscais de piada que vivem de reclamar preconceito e uma sorte inacreditável de ‘fobias’ em tudo que lhes desagrada na Internet. E o que se descobriu é que eles tem um passado podre o suficiente para deixar um membro da Ku Klux Klan com vergonha.

Sejamos francos: todos nós já rimos de (e fizemos) piadas politicamente incorretíssimas. Ninguém via xenofobia em ‘Jumento Celestino’ dos Mamonas Assassinas, racismo em ‘Lá vem o Negão’ do Cravo e Canela, tampouco machismo em ‘Ciúme’ do Ultraje a Rigor, talvez porque havia consciência de que o verdadeiro intolerante e preconceituoso não se cura com textos gigantescos nem hashtags, e que a problematização, longe de intimida-lo, estimula-o. Ainda assim, nem todos nós viramos supervisores de anedotas, cobrando e apontando nos outros comportamentos idênticos aos que fazíamos anteriormente.

As reações de quem é confrontado com os velhos comportamentos costuma ser uma variação do mesmo discurso: ‘eu mudei, não sou mais assim’.

Será mesmo? Agora que você se tornou uma pessoa tão evoluída e superior por passar de Adolf Hitler a Jesus Cristo de Nazaré em dois ou três anos, por que é que não trata de forma mais condescendente aqueles que ainda não passaram por essa milagrosa transformação? Também não vale invocar o Pokémon da imaturidade, porque comparar um negro àquela famosa espécie de símio é racismo desde 1500 e guaraná com rolha. Esse último ‘argumento’ fica ainda mais fraco se você acredita que as piadas de Joanna Maranhão com uma transexual é só uma piada, mas os tweets ‘machistas-racistas-homofóbicos’ de quando o cantor Biel era menor de idade o transformam no ser mais desprezível que já pisou na superfície da Terra.

Portanto, se você era um senhor de engenho e virou o próximo da fila da canonização da Igreja Católica, ótimo. Apenas pare de fechar a mão e apontar o dedo para as pessoas esquecendo que três outros dedos indicam para você, e tenha em mente que quem tem teto de vidro não atira pedras no do vizinho.

One thought on “O justiceiro social e a intolerância

  1. Fernando Dória

    Problema desse bom texto é que vc diz uma série de verdades, que hj são consideradas “políticamente incorretas” e todo mundo fica cheio de dedos em comentá-lo….

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