Mudança de sexo em crianças é “abuso infantil”, diz Camille Paglia, intelectual lésbica e ateia

Teórica do “pós-feminismo”, a ensaísta norte-americana diz que a normalização da homossexualidade é sintoma de colapso cultural e critica os rumos do feminismo atual.

Ela foi a primeira estudante da Universidade de Yale a se assumir lésbica. Porém, é justamente a partir de suas concepções feministas e ateístas que a ensaísta Camille Paglia, ao contrário do esperado, mantém um discurso que se opõe às reivindicações típicas de grupos de pressão LGBT e da ideologia de gênero. “A homossexualidade não é normal”, segundo ela, que, aos quase 70 anos, é considerada a principal teórica do que tem sido chamado de “pós-feminismo”. “Pelo contrário, é um desafio à regra”.

Para ela, a tendência à homossexualidade e à transgeneridade é “uma forma de disfunção”, porque na natureza “há apenas dois sexos biologicamente determinados” e a androginia, tema de suas pesquisas na pós-graduação, está limitada a um número muito restrito de casos. Seria a propaganda LGBT que faz emergir uma falsa necessidade de uma diversidade de rótulos cada vez maior.

Além disso, Paglia reconhece que cada sexo traz consigo características inatas, um modo de ser masculino e um modo de ser feminino muito claros, que as principais vertentes do feminismo atual insistem em ignorar. A cirurgia de mudança de sexo é, até mesmo biologicamente, uma ilusão, já que cada célula continua tendo um material genético ou feminino ou masculino. E Paglia é muito clara a respeito de pais que permitem que seus filhos iniciem processos de mudança de sexo na infância ou na adolescência: “Isso é abuso infantil”, diz.

Segundo as pesquisas históricas de Paglia, todo período de declínio de uma cultura é marcado pela efervescência de fenômenos transgêneros, que são, assim, “um sintoma do colapso de uma cultura”. “Por que nos últimos anos não houve nem mesmo um único líder gay que chegasse minimamente perto da estatura de um Martin Luther King Jr.?”, pergunta. A resposta, segundo ela, é óbvia: “Porque o ativismo negro está inspirado na profunda tradição espiritual da Igreja, à qual a retórica política gay é hostil de uma maneira infantil”.

“Os códigos morais são a civilização. Sem eles, estaríamos esmagados pela barbárie caótica do sexo, da tirania da natureza”, diz ela. Por isso, mesmo ateia, Paglia reconhece o papel histórico das religiões. “Tenho um grande respeito pela religião, que considero uma fonte de valor psicológico infinitamente mais rico que o estruturalismo eticamente insensato que se converteu em religião secular”, diz.

No feminismo atual, Paglia não vê ideias novas, mas um retorno “às piores ideias do feminismo”, que ela acreditava derrotadas. Entre elas, está o repúdio que muitos setores do feminismo demonstram à própria ideia da maternidade. Para Paglia, a verdadeira luta do feminismo atual deveria estar em pressionar empresas, governos e universidades para que não obriguem as mulheres que queiram ser mães a interromper sua vida acadêmica e profissional.

Muitos desses erros, para Paglia, decorrem de que o feminismo atual se volta, mesmo sem perceber, a mulheres da classe média alta. É, para ela, um feminismo burguês, que escusa as mulheres de qualquer responsabilidade pelo que fazem, e que simplesmente transferiu da religião para as pautas feministas sua necessidade de servir a uma ideologia. “Para mim, o feminismo é inútil se as feministas só conversam entre si e recusam qualquer crítica”, afirma.

Assista à participação de Camille Paglia no programa Roda Viva, em 2015:

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